– Vocês pensam no bem comum? Vocês ensinam seus filhos a pensar no bem comum?
Com os olhos injetados como os de um maníaco prestes a executar sua presa, o pastor bradava à multidão que se espremia no templo. Com os braços para o alto, muitos repetiam, em silêncio, o que o líder gritava do púlpito. Uma senhora negra, quase obesa, chamava a minha atenção. De onde eu estava, podia enxergar os detalhes de sua entrega. Ela parecia estar em transe: imóvel, balbuciava algumas palavras com um movimento quase imperceptível dos lábios. Ao seu lado, uma criança assustada, talvez seu filho, olhava fixamente para ela. De repente, numa fração de segundo, o menino esticou, cresceu, ultrapassou a altura da mãe e passou a acompanhar o sermão como todos os outros adultos presentes.
A senhora, por sua vez, tornou-se branca, amarela, vermelha, azul. As cores mudavam rapidamente, até que ela voltou ao branco e assim ficou até o fim. Levantei os olhos e percebi que o resto da multidão também brilhava em diferentes cores, cada um no seu compasso. Não demorei a imaginar que meu corpo também deveria estar mudando de cor. Estava. Depois de fitar minhas mãos verdes, voltei minha atenção novamente ao pastor, mas ele não estava mais lá. Corta para uma mesa de bar, em que amigos bebem despreocupadamente. Um casal ri dos últimos passos do filho bebê, que não faz muito tempo começou a ensaiar as primeiras caminhadas. Todos se divertem, aparentemente sem perceber minha mão que, de verde, passou a marrom, lilás, vermelha e, finalmente, branca. Já não consigo prestar atenção ao grupo com o qual eu deveria estar interagindo. Era noite. Dia. Entardecia. E o sol poente parecia queimar minhas costas com seus últimos suspiros. Virei-me e sua luz me ofuscou.
Agora eu estava em um salão branco, excessivamente iluminado. Olhando com mais cuidado, percebi que o salão, na verdade, era um corredor que parecia infinito. Caminhei por horas, dias, semanas, sem encontrar nada nem ninguém. Apenas o branco ao qual, aos poucos, meus olhos se adaptaram. Então vi uma luz escura no fim. Corri com fôlego suspeito até o ponto negro, mas ele não se aproximava, permanecia a distância. Num piscar de olhos, o ponto negro se transformou em um grande abismo do qual eu não conseguia fugir. Me agarrei à beirada do caminho para tentar não cair, mas foi em vão. Caí.
– Vocês pensam no bem comum? Vocês ensinam seus filhos a pensar no bem comum?
As palavras, agora, não eram ditas por um pastor. E não havia nenhuma multidão multicor ao meu redor. Eu estava sozinho, ou julgava estar. De olhos fechados, continuava a ouvir o cântico de repreensão. Aos poucos, senti o travesseiro onde repousava minha cabeça. Deitado com a barriga para cima, podia ouvir com nitidez as palavras que vinham do lado de fora da janela. Era uma voz masculina que gritava suas palavras de ordem para toda a vizinhança. Virei para o lado, peguei o telefone celular e apertei algum botão para que ele mostrasse as horas. Seis e meia da manhã. De um domingo. O que significava que ainda haveria sono, e sonhos, após o discurso que insistia em me acordar.
Ela também acordou. Ao meu lado, ainda entorpecida pelo sono, se remexia tentando decifrar o ruído que a arrancara de seu repouso.
– É um maluco qualquer gritando na rua. Daqui a pouco ele sossega.
De fato, depois de alguns minutos a voz tornou-se distante, até que desapareceu entre os ruídos difusos da cidade.
sábado, 8 de agosto de 2009
quinta-feira, 12 de março de 2009
Solar
Meu filho está louco de amor. Desvairadamente apaixonado. Pelo Sol. Bem cedo, pela manhã, antes mesmo que os primeiros raios despontem, ele já está de pé, ansioso para aproveitar cada fóton que irá esbarrar em sua pele nas horas seguintes. Acorda radiante. E já nos primeiros passos matutinos parece um pequeno embrulho de energia solar. E assim segue o dia, na sua fotossíntese criativa de menino.
No fim da tarde, quanto o astro-rei começa a querer se esconder sob o horizonte, o temperamento do pequeno começa a se desiluminar. É a hora do choro fácil, da pirraça incontida, da birra com a escuridão que teima em se abater sobre nós.
À noite, chegam as reclamações. "Papai, cadê o Sol?". "Foi dormir, filho. Amanhã ele volta". Eis a senha para um provável berreiro que só cessará com alguma artimanha do pai ou da mãe que, já há algum tempo, desistiram de lutar contra essa paixão.
Faça-se a luz, filho. Para que você continue brilhando muito nos próximos anos, como brilhou nos últimos três.
No fim da tarde, quanto o astro-rei começa a querer se esconder sob o horizonte, o temperamento do pequeno começa a se desiluminar. É a hora do choro fácil, da pirraça incontida, da birra com a escuridão que teima em se abater sobre nós.
À noite, chegam as reclamações. "Papai, cadê o Sol?". "Foi dormir, filho. Amanhã ele volta". Eis a senha para um provável berreiro que só cessará com alguma artimanha do pai ou da mãe que, já há algum tempo, desistiram de lutar contra essa paixão.
Faça-se a luz, filho. Para que você continue brilhando muito nos próximos anos, como brilhou nos últimos três.
terça-feira, 18 de novembro de 2008
A minha redenção
O ano: 1982.
O evento: as "olimpíadas" da escola em que eu estudava -- CEAT, o castelinho de Santa Teresa (Rio/RJ) que abrigava os filhos dos intelectuais, intelectualóides, guerrilheiros e petistas de carteirinha recém-plastificada (minha mãe, dorinha querida, que certamente lerá estas linhas, era uma delas).
O protagonista: euzinho.
Na turma, quase todos os meus colegas comemoravam. O evento esportivo seria uma oportunidade de reunir a molecada em uma algazarra institucionalizada. E de cabular aulas sem ficar com falta... Mas eu não achava nenhuma graça na festa. Minha inabilidade congênita em qualquer atividade esportiva me fazia temer o que me esperava nos dias seguintes. Era preciso escolher duas modalidades. Para minha infelicidade, cravei futebol e maratona. Sim, maratona. Não daquelas de 40 quilômetros, mas uma mais leve, de dois ou quatro, agora não lembro.
Eis que chega o grande dia. Mamãe, padrasto e irmãozinho a tiracolo, fomos todos juntos para a escola. Minha família, preciso dizer, não era dessas modernas, em que os pais estimulam os filhos mesmo sabendo das dificuldades da petizada. Lá em casa a honestidade diante das crianças era tanta que não sei como não nos transformamos, eu e meus dois irmãos, em psicopatas estripadores comedores de criancinhas. Mas isso não vem ao caso.
O que importa é que no dia da provação, lá estava eu, equipado com meu Bamba azul de bico branco à espera das risadas alheias. E elas vieram, a começar da minha família, claro, quando eu não agüentei correr mais de 500 metros na maldita maratona. Em seguida, o futebol. Sem saber o que fazer, me posicionei estrategicamente no centro da quadra e disparei a roer as unhas desesperadamente, à espera de uma luz divina que não veio. Sem conseguir sair do lugar, enraizado no concreto enquanto meus colegas disputavam a pelota como cães vadios, eis que o técnico tira a solução da cartola. Fui substituído. Por uma menina.
Luana era o nome dela. Usava óculos, tinha sardas e jogava muito, muito melhor que eu. Depois disso, não lembro de quase nada. Só sei que durante algum tempo fui apaixonado por ela. Aos oito anos de idade, a suprema humilhação se transformou em admiração.
A paixão não deve ter durado mais que alguns dias. Mas o trauma, sim, o trauma de ser substituído por uma mulher, o escárnio dos colegas diante de um ET roedor de unhas que não conseguia encostar na bola, a execração familiar por minha falta de talento para o esporte, isso tudo ficou até hoje. Ou melhor, até ontem. Se Ronaldo, o fenômeno, pode ser substituído por uma mulher, meu trauma pode ser, finalmente, esquecido.
E que bons ventos te acompanhem, Luana.
Para quem não leu, eis o link da notícia redentora.
O evento: as "olimpíadas" da escola em que eu estudava -- CEAT, o castelinho de Santa Teresa (Rio/RJ) que abrigava os filhos dos intelectuais, intelectualóides, guerrilheiros e petistas de carteirinha recém-plastificada (minha mãe, dorinha querida, que certamente lerá estas linhas, era uma delas).
O protagonista: euzinho.
Na turma, quase todos os meus colegas comemoravam. O evento esportivo seria uma oportunidade de reunir a molecada em uma algazarra institucionalizada. E de cabular aulas sem ficar com falta... Mas eu não achava nenhuma graça na festa. Minha inabilidade congênita em qualquer atividade esportiva me fazia temer o que me esperava nos dias seguintes. Era preciso escolher duas modalidades. Para minha infelicidade, cravei futebol e maratona. Sim, maratona. Não daquelas de 40 quilômetros, mas uma mais leve, de dois ou quatro, agora não lembro.
Eis que chega o grande dia. Mamãe, padrasto e irmãozinho a tiracolo, fomos todos juntos para a escola. Minha família, preciso dizer, não era dessas modernas, em que os pais estimulam os filhos mesmo sabendo das dificuldades da petizada. Lá em casa a honestidade diante das crianças era tanta que não sei como não nos transformamos, eu e meus dois irmãos, em psicopatas estripadores comedores de criancinhas. Mas isso não vem ao caso.
O que importa é que no dia da provação, lá estava eu, equipado com meu Bamba azul de bico branco à espera das risadas alheias. E elas vieram, a começar da minha família, claro, quando eu não agüentei correr mais de 500 metros na maldita maratona. Em seguida, o futebol. Sem saber o que fazer, me posicionei estrategicamente no centro da quadra e disparei a roer as unhas desesperadamente, à espera de uma luz divina que não veio. Sem conseguir sair do lugar, enraizado no concreto enquanto meus colegas disputavam a pelota como cães vadios, eis que o técnico tira a solução da cartola. Fui substituído. Por uma menina.
Luana era o nome dela. Usava óculos, tinha sardas e jogava muito, muito melhor que eu. Depois disso, não lembro de quase nada. Só sei que durante algum tempo fui apaixonado por ela. Aos oito anos de idade, a suprema humilhação se transformou em admiração.
A paixão não deve ter durado mais que alguns dias. Mas o trauma, sim, o trauma de ser substituído por uma mulher, o escárnio dos colegas diante de um ET roedor de unhas que não conseguia encostar na bola, a execração familiar por minha falta de talento para o esporte, isso tudo ficou até hoje. Ou melhor, até ontem. Se Ronaldo, o fenômeno, pode ser substituído por uma mulher, meu trauma pode ser, finalmente, esquecido.
E que bons ventos te acompanhem, Luana.
Para quem não leu, eis o link da notícia redentora.
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
Tudo que uma criança de 2 anos consegue fazer em 30 segundos
.
- Pegar a bolsa da mãe em cima da mesa, abrir, fuçar até encontrar o estojo de maquiagem, abrir o estojo, pegar o batom e se lambuzar da testa ao dedão do pé.
- Tirar a roupa, arrancar a fralda cheia de cocô, colocar a roupa de novo, abrir a fralda e espalhar o cocô por toda a casa.
- Abrir o armário de CDs e DVDs, tirar todos os discos das respectivas caixas, arrancar e destruir as capas (em mais 30 segundos, os discos também se vão).
- Tirar todas as roupas de todas as gavetas.
- Alagar o banheiro (em mais 30 segundos, o bairro).
- Fazer com que a família passe do êxtase (oooooh, que lindo...) à ira (vem cá que eu vou te enfiar a mão, sua peste!).
- Passar a boca e o nariz sujos na manga da blusa quatrocentas e trinta e sete vezes, transformando uma roupa cheirosinha em uma peça de lixo biológico infectante.
- Com um polegar, provocar um desmoronamento, por efeito dominó, de 89 TVs de LCD e Plasma em uma loja de eletrônicos.
- Pegar no sono (quando quer).
- Passar do torpor do despertar à euforia matinal (quando os pais não querem).
- Abrir e esvaziar (com ou sem ingestão) todos os recipientes de shampoo, condicionador, sabonete líquido (adulto e infantil) que estão no box, enquanto o pai ou a mãe enxaguam a cabeça de olhos fechados.
(...)
- Pegar a bolsa da mãe em cima da mesa, abrir, fuçar até encontrar o estojo de maquiagem, abrir o estojo, pegar o batom e se lambuzar da testa ao dedão do pé.
- Tirar a roupa, arrancar a fralda cheia de cocô, colocar a roupa de novo, abrir a fralda e espalhar o cocô por toda a casa.
- Abrir o armário de CDs e DVDs, tirar todos os discos das respectivas caixas, arrancar e destruir as capas (em mais 30 segundos, os discos também se vão).
- Tirar todas as roupas de todas as gavetas.
- Alagar o banheiro (em mais 30 segundos, o bairro).
- Fazer com que a família passe do êxtase (oooooh, que lindo...) à ira (vem cá que eu vou te enfiar a mão, sua peste!).
- Passar a boca e o nariz sujos na manga da blusa quatrocentas e trinta e sete vezes, transformando uma roupa cheirosinha em uma peça de lixo biológico infectante.
- Com um polegar, provocar um desmoronamento, por efeito dominó, de 89 TVs de LCD e Plasma em uma loja de eletrônicos.
- Pegar no sono (quando quer).
- Passar do torpor do despertar à euforia matinal (quando os pais não querem).
- Abrir e esvaziar (com ou sem ingestão) todos os recipientes de shampoo, condicionador, sabonete líquido (adulto e infantil) que estão no box, enquanto o pai ou a mãe enxaguam a cabeça de olhos fechados.
(...)
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
Contra-indicações e partidos
Quem, como eu, teve que ouvir (involuntariamente) algumas propagandas políticas nos últimos meses, talvez tenha percebido um detalhe insólito das peças publicitárias dos candidatos: em algumas, devido ao enorme número de siglas envolvidas nas coligações, o nome dos partidos é citado freneticamente por algum locutor nos últimos segundos da propaganda. Quase não dá pra entender o que o sujeito fala. Percebam.
Lembrei dos anúncios de remédios na TV e no rádio. No fim deles, quase sempre há algum aviso de contra-indicação, do tipo "este medicamento é contra-indicado em caso de suspeita de dengue". O aviso é transmitido do mesmo jeito atropelado, só para constar.
A semelhança não parece ser mera coincidência.
Em tempos de marquetagem eleitoral explícita e de dissolução assumida das ideologias (e dos compromissos), os partidos talvez não passem disso: uma contra-indicação.
Lembrei dos anúncios de remédios na TV e no rádio. No fim deles, quase sempre há algum aviso de contra-indicação, do tipo "este medicamento é contra-indicado em caso de suspeita de dengue". O aviso é transmitido do mesmo jeito atropelado, só para constar.
A semelhança não parece ser mera coincidência.
Em tempos de marquetagem eleitoral explícita e de dissolução assumida das ideologias (e dos compromissos), os partidos talvez não passem disso: uma contra-indicação.
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
Era uma vez...
... um bebê.
Há aproximadamente 907 dias (o que é a mesma coisa que 2 anos, 5 meses e 23 dias, escrito de um jeito mais elegante), 7 horas e 15 minutos , nascia o meu filho, Mateus.
O bebê gorducho que teve que ficar alguns dias na UTI virou um bebê gorducho que não sabia mamar no peito. Aí ele aprendeu. E depois sugou a mãe até (ela) dizer "chega, com esse dentes não dá!". Foi logo depois disso que o pequenino teve que enfrentar a dura realidade do berçário. Tão novo, tão miúdo... Mas o moleque se saiu bem. Andou. Falou. E hoje já arremessa as suas pérolas verbais que fazem rir e chorar.
Ele era um bebê. Até ontem. O rito de passagem deveria ser outro (aprender de uma vez por todas a fazer xixi no vaso seria um bom começo, ou simplesmente não esfregar a colher lambuzada de danoninho no sofá novo), mas dizem que nós não escolhemos o destino, então...
Quem me contou a novidade foi a Cris: Mateus beijou a Giovana na boca. Como assim, na boca? Na boca. Ao sair da escolinha, vapt-vupt, com o pai da "moça" acompanhando a cena. Na boca mesmo? Sim, na boca.
A imagem, por motivos óbvios, ficou martelando a minha cabeça. Tanto que eu tive que escrever isso aqui. Mas a minha crise existencial não vem ao caso. O que importa é que, a partir de agora, Mateus deixa oficialmente de ser um bebê e se transforma em uma criança. Atrevida, mas criança mesmo assim.
Daqui a alguns (espero que muitos) anos, virão os beijos verdadeiros, os beijos que não foram dados, as lágrimas dos beijos que se foram e não voltam mais, o ciúme dos beijos que não foram seus, a alegria dos beijos correspondidos. Serão muitos? Poucos? Sinceros? Furtivos? Estalados? Não sei.
Só sei que o meu desejo é que ele seja feliz para sempre.
Há aproximadamente 907 dias (o que é a mesma coisa que 2 anos, 5 meses e 23 dias, escrito de um jeito mais elegante), 7 horas e 15 minutos , nascia o meu filho, Mateus.
O bebê gorducho que teve que ficar alguns dias na UTI virou um bebê gorducho que não sabia mamar no peito. Aí ele aprendeu. E depois sugou a mãe até (ela) dizer "chega, com esse dentes não dá!". Foi logo depois disso que o pequenino teve que enfrentar a dura realidade do berçário. Tão novo, tão miúdo... Mas o moleque se saiu bem. Andou. Falou. E hoje já arremessa as suas pérolas verbais que fazem rir e chorar.
Ele era um bebê. Até ontem. O rito de passagem deveria ser outro (aprender de uma vez por todas a fazer xixi no vaso seria um bom começo, ou simplesmente não esfregar a colher lambuzada de danoninho no sofá novo), mas dizem que nós não escolhemos o destino, então...
Quem me contou a novidade foi a Cris: Mateus beijou a Giovana na boca. Como assim, na boca? Na boca. Ao sair da escolinha, vapt-vupt, com o pai da "moça" acompanhando a cena. Na boca mesmo? Sim, na boca.
A imagem, por motivos óbvios, ficou martelando a minha cabeça. Tanto que eu tive que escrever isso aqui. Mas a minha crise existencial não vem ao caso. O que importa é que, a partir de agora, Mateus deixa oficialmente de ser um bebê e se transforma em uma criança. Atrevida, mas criança mesmo assim.
Daqui a alguns (espero que muitos) anos, virão os beijos verdadeiros, os beijos que não foram dados, as lágrimas dos beijos que se foram e não voltam mais, o ciúme dos beijos que não foram seus, a alegria dos beijos correspondidos. Serão muitos? Poucos? Sinceros? Furtivos? Estalados? Não sei.
Só sei que o meu desejo é que ele seja feliz para sempre.
sexta-feira, 1 de agosto de 2008
Margarida, a contadora de histórias
Crianças boazinhas devem falar a verdade, somente a verdade. Essa atitude politicamente correta garante, entre outras prendas, surpresas agradáveis na noite de Natal. É isso que ensinam quase todos os pais e mães com algum juízo na cabeça. Seus pimpolhos não devem mentir jamais, a menos que estejam correndo risco de vida -- ou de morte, como preferem os jornalistas mais esclarecidos. De acordo?
Não sem algum rubor, confesso que na minha infância a banda não tocou exatamente desse jeito. Posso dizer até que fui educado com base na mentira. Não no embuste como profissão de fé ou como meio de se conseguir benefícios suspeitos. Nada disso. Mas na mentirola cotidiana que alegra a vida e provoca risadas. Ainda sou aprendiz de mentiroso, mas posso dizer que já absorvi algumas lições.
A culpada por esse sutilíssimo desvio de caráter, senhoras e senhores, é ninguém menos que minha mãe. Sim, a mulher que me pôs neste mundo é uma loroteira compulsiva. Margarida, que é um dos seus sobrenomes (o resto eu não revelo para não ter que mentir) adora, sempre adorou inventar situações mirabolantes. Ela faz questão de transmitir as histórias que ouve ou testemunha com os devidos temperos. E não há platéia que passe incólume por uma de suas palestras. Depois da narrativa, os crédulos se espantam, os críticos resmungam e os tolerantes, que já conhecem de cor e salteado seus ardis fantasiosos, quase sempre deixam escapar generosas gargalhadas.
São muitas as histórias que eu poderia contar. Lembro-me de quando uma babá que trabalhava em nossa casa, quando eu tinha não muito mais que dez anos, ficou doente sem mais nem menos. E Margarida, sem pestanejar, deu o veredicto: a pobre infeliz estava com gonorréia. Deixou a falsa enferma em isolamento por não sei quantos dias, proibiu todos os demais habitantes do diminuto apartamento de encostar nos talheres que a pestilenta houvesse tocado... até que se descobriu, não sei como, que a moléstia não passava de uma virose qualquer.
A medicina é sua área predileta. Como uma residente ansiosa, crava em segundos diagnósticos certeiros sobre qualquer achaque.
- Mãe, o bebê está com febre, mas já fomos na pediatra e ela disse que não é nada, só uma gripe boba...
- Cuidado que pode ser meningite. Tá um surto horrível de meningite aqui no Rio. Será que essa pediatra é boa mesmo? Não é melhor vocês ouvirem outro médico? Não sei não, mas tenho uma cisma com essa mulher.
Ela também é especialista em questões policiais. Um episódio aconteceu anteontem. Minha mulher teve o telefone celular furtado em uma viagem recente e, alguns dias depois, uma alma piedosa ligou para a minha sogra (cujo número estava na lista de contatos do aparelho) dizendo que tinha encontrado o dito. Lá fui eu telefonar para mamãe para deixá-la a par do fato, já sabendo que ela tiraria da cartola uma de suas invencionices.
- Cuidado, meu filho. Pode ser golpe. Será que não clonaram? Uma vez perdi o celular e me ligaram até da cadeia. Não deixe de ir com ela para pegar o telefone de volta.
Será?
Não sem algum rubor, confesso que na minha infância a banda não tocou exatamente desse jeito. Posso dizer até que fui educado com base na mentira. Não no embuste como profissão de fé ou como meio de se conseguir benefícios suspeitos. Nada disso. Mas na mentirola cotidiana que alegra a vida e provoca risadas. Ainda sou aprendiz de mentiroso, mas posso dizer que já absorvi algumas lições.
A culpada por esse sutilíssimo desvio de caráter, senhoras e senhores, é ninguém menos que minha mãe. Sim, a mulher que me pôs neste mundo é uma loroteira compulsiva. Margarida, que é um dos seus sobrenomes (o resto eu não revelo para não ter que mentir) adora, sempre adorou inventar situações mirabolantes. Ela faz questão de transmitir as histórias que ouve ou testemunha com os devidos temperos. E não há platéia que passe incólume por uma de suas palestras. Depois da narrativa, os crédulos se espantam, os críticos resmungam e os tolerantes, que já conhecem de cor e salteado seus ardis fantasiosos, quase sempre deixam escapar generosas gargalhadas.
São muitas as histórias que eu poderia contar. Lembro-me de quando uma babá que trabalhava em nossa casa, quando eu tinha não muito mais que dez anos, ficou doente sem mais nem menos. E Margarida, sem pestanejar, deu o veredicto: a pobre infeliz estava com gonorréia. Deixou a falsa enferma em isolamento por não sei quantos dias, proibiu todos os demais habitantes do diminuto apartamento de encostar nos talheres que a pestilenta houvesse tocado... até que se descobriu, não sei como, que a moléstia não passava de uma virose qualquer.
A medicina é sua área predileta. Como uma residente ansiosa, crava em segundos diagnósticos certeiros sobre qualquer achaque.
- Mãe, o bebê está com febre, mas já fomos na pediatra e ela disse que não é nada, só uma gripe boba...
- Cuidado que pode ser meningite. Tá um surto horrível de meningite aqui no Rio. Será que essa pediatra é boa mesmo? Não é melhor vocês ouvirem outro médico? Não sei não, mas tenho uma cisma com essa mulher.
Ela também é especialista em questões policiais. Um episódio aconteceu anteontem. Minha mulher teve o telefone celular furtado em uma viagem recente e, alguns dias depois, uma alma piedosa ligou para a minha sogra (cujo número estava na lista de contatos do aparelho) dizendo que tinha encontrado o dito. Lá fui eu telefonar para mamãe para deixá-la a par do fato, já sabendo que ela tiraria da cartola uma de suas invencionices.
- Cuidado, meu filho. Pode ser golpe. Será que não clonaram? Uma vez perdi o celular e me ligaram até da cadeia. Não deixe de ir com ela para pegar o telefone de volta.
Será?
quarta-feira, 28 de maio de 2008
Por um fio
- Uma média e um pão com manteiga, por favor. Sem ser na chapa.
À sua direita, um senhor calvo, alto e encorpado devorava um sanduíche qualquer com um guaraná diet. Ficou com vontade de dizer pra ele que não fizesse aquilo, que refrigerante às oito da manhã não fazia bem, que dava gastrite, et cetera e tal. Mas pensou melhor e resolveu ficar calada. Mais que isso: pediu uma coca. Normal.
Era domingo. Um domingo chuvoso no Rio de Janeiro. Em pleno Leblon, ela se sentia em São Paulo, sua cidade natal. Enquanto esperava o pão e a média, tomava a sua coca. E pensou, por alguns segundos, que nunca devia ter saído de lá. "O Rio é uma cidade apaixonante", tinha dito uma amiga carioca em Sampa. Durante dois anos, ela foi obrigada a concordar. Ele fez com que ela acreditasse que o sol brilharia para sempre. E ela embarcou no sonho.
Agora, o que restava era um fio de cabelo dele no travesseiro. E o cheiro que teimava em não ir embora. Ele tinha partido. Havia duas semanas, encheu três malas de roupas, roubou alguns CDs que não eram dele, esvaziou a prateleira de livros, chamou um táxi e se despediu com um beijo na face. Só. Sem brigas, sem nada.
O senhor ao seu lado lia o jornal. Ela não conseguia pensar no dia de ontem. Só no que aconteceria amanhã. E no cheiro. O maldito cheiro que não ia embora.
À sua direita, um senhor calvo, alto e encorpado devorava um sanduíche qualquer com um guaraná diet. Ficou com vontade de dizer pra ele que não fizesse aquilo, que refrigerante às oito da manhã não fazia bem, que dava gastrite, et cetera e tal. Mas pensou melhor e resolveu ficar calada. Mais que isso: pediu uma coca. Normal.
Era domingo. Um domingo chuvoso no Rio de Janeiro. Em pleno Leblon, ela se sentia em São Paulo, sua cidade natal. Enquanto esperava o pão e a média, tomava a sua coca. E pensou, por alguns segundos, que nunca devia ter saído de lá. "O Rio é uma cidade apaixonante", tinha dito uma amiga carioca em Sampa. Durante dois anos, ela foi obrigada a concordar. Ele fez com que ela acreditasse que o sol brilharia para sempre. E ela embarcou no sonho.
Agora, o que restava era um fio de cabelo dele no travesseiro. E o cheiro que teimava em não ir embora. Ele tinha partido. Havia duas semanas, encheu três malas de roupas, roubou alguns CDs que não eram dele, esvaziou a prateleira de livros, chamou um táxi e se despediu com um beijo na face. Só. Sem brigas, sem nada.
O senhor ao seu lado lia o jornal. Ela não conseguia pensar no dia de ontem. Só no que aconteceria amanhã. E no cheiro. O maldito cheiro que não ia embora.
Uma vez Flamengo... (original: 1/11/07)
Quando a década de 70 ainda não tinha feito a curva, eu ia ao Maracanã com vovô. Flamenguista roxo (ou melhor, rubro), ele se deleitava com o timaço que, à época, talvez fosse o melhor do Brasil. Em 1981, no auge dos meus 7 anos, comemoramos juntos a Libertadores e o Mundial. Depois disso, me afastei de Zico & Cia., cresci, deixei de freqüentar a casa da vovó, mudei de cidade... mas ontem, vendo o Mengão derrubar o Timinho, alguma coisa aconteceu no meu coração. E não foi em nenhuma esquina de Sampa.
Vovô, eu sei que você ainda guarda, em algum cantinho, boas lembranças daquela época. Se algum canal telepático estiver sintonizado neste instante, saiba que penso muito em você. E em nossas aventuras futebolísticas. Flamengo sempre eu hei de ser, sr. Pedro Chaves. E espero te ver muito em breve.
Um beijo do neto.
Vovô, eu sei que você ainda guarda, em algum cantinho, boas lembranças daquela época. Se algum canal telepático estiver sintonizado neste instante, saiba que penso muito em você. E em nossas aventuras futebolísticas. Flamengo sempre eu hei de ser, sr. Pedro Chaves. E espero te ver muito em breve.
Um beijo do neto.
Vozes da cidade
A festa estava quase no fim. Pensou que já deveria ter ido embora, que naquele instante todas as potenciais caronas já tinham saído, que, afinal de contas, não fazia muito sentido estar ali sentada, sem os sapatos, com as pernas enfiadas pelas grades de proteção, balançando os pés no terraço daquele prédio altíssimo, às 4 da madrugada.
De onde estava podia ouvir os últimos acordes do DJ, conversas diluídas no vento frio e um casal que discutia não muito longe dali. A cidade iluminada, que não dava trégua à noite, também fornecia seus ruídos. Ela queria o silêncio, mas, por um momento, teve a sensação de que teria que conviver para sempre com todas aquelas vozes. Fechou os olhos e, resignada, sorriu, ao som de um copo se espatifando no chão.
De onde estava podia ouvir os últimos acordes do DJ, conversas diluídas no vento frio e um casal que discutia não muito longe dali. A cidade iluminada, que não dava trégua à noite, também fornecia seus ruídos. Ela queria o silêncio, mas, por um momento, teve a sensação de que teria que conviver para sempre com todas aquelas vozes. Fechou os olhos e, resignada, sorriu, ao som de um copo se espatifando no chão.
Podia ser
Aquele menino deitado na calçada, escondido em uma sombra estreita, ao sol das três da tarde de uma terça-feira de dezembro, dormindo alheio à sujeira de seu corpo, de sua roupa, de suas sandálias, do pano que o isolava do cimento áspero do chão, semiprotegido pelo olhar triste e resignado da mãe, igualmente suja, podia ser você, mas não é. Ele tinha o mesmo tamanho, as mesmas bochechas salientes, o mesmo pé gordinho, o mesmo jeito de se entregar ao sono, de bruços, que também é a sua posição predileta para dormir. Tinha um jeito assim de filho meu, que muito me faz sorrir, mas não era. Mas era tão parecido, sabe? Tão parecido que deu vontade de chorar. E chorei.
Imagens
O mendigo estático na frente da padaria, esperando o desjejum;
A moça no caixa que boceja e confere o troco antes de entregá-lo para o senhor com aparelho auditivo;
O operário dormindo sentado na calçada;
A mãe com um filho no colo e outro na mão, na fila do ônibus;
O casal animado na entrada do metrô;
A velhinha com medo da escada rolante;
O babaca que insiste em ultrapassar a faixa amarela;
A multidão;
A multidão;
A multidão;
A menina de olheiras se protegendo da garoa com um caderno;
O entregador de jornal que atrapalha o fluxo de pedestres;
O vendedor de guarda-chuva reclamando da concorrência;
O garotão marombado com cara de que a noite foi boa;
A mulher de meia-idade com cara de que as noites têm sido péssimas;
O engravatado correndo para pegar o ônibus com o MP3 Player na mão;
A multidão;
O moleque pisando de propósito no cimento fresco;
As pombas que já não mais se assustam com os nossos pés;
E depois tudo de novo, e mais, e mais, e mais...
São miragens.
A moça no caixa que boceja e confere o troco antes de entregá-lo para o senhor com aparelho auditivo;
O operário dormindo sentado na calçada;
A mãe com um filho no colo e outro na mão, na fila do ônibus;
O casal animado na entrada do metrô;
A velhinha com medo da escada rolante;
O babaca que insiste em ultrapassar a faixa amarela;
A multidão;
A multidão;
A multidão;
A menina de olheiras se protegendo da garoa com um caderno;
O entregador de jornal que atrapalha o fluxo de pedestres;
O vendedor de guarda-chuva reclamando da concorrência;
O garotão marombado com cara de que a noite foi boa;
A mulher de meia-idade com cara de que as noites têm sido péssimas;
O engravatado correndo para pegar o ônibus com o MP3 Player na mão;
A multidão;
O moleque pisando de propósito no cimento fresco;
As pombas que já não mais se assustam com os nossos pés;
E depois tudo de novo, e mais, e mais, e mais...
São miragens.
Projeto Presente - Prelúdio Ficcional
- Ai, meu filho, sabe o que é? Eu não sei muito bem por onde começar...
- Por onde quiser.
- Espera um pouco, então. Deixa eu pegar meus óculos.
- Mas a senhora não precisa ler nada.
- Eu sei. É que preciso enxergar você direito.
(...)
- Vamos lá. Já que eu posso começar por onde quiser, começo dizendo que a comida daqui é horrível. Sabe o que é? Eles têm que fazer uma coisa meio sem tempero, porque alguns velhinhos daqui têm pressão alta, outros têm colesterol, outros têm não sei o quê... minha saúde é de ferro, mês passado mesmo eu fui no médico, doutor Luiz, ótima pessoa, e ele disse que eu vivo mais oitenta e cinco. É um pândego esse doutor, claro. Nem aquele velho que construiu Brasília, como é o nome dele...
- Oscar Niemeyer. Ele não construiu, só planejou a cidade.
- Isso, o Niemeyer. Nem ele viveria tanto, e olha que já passou dos cem e tá aí cheio de saúde. Aposto que come o que quer, na hora que quer... mas então, sabe o que é, aqui a comida é horrível. A gente tenta dar um jeito, esconde umas bolachas para os outros não pegarem e come tudo de madrugada... mas comida mesmo, que é bom, é tudo sem sal e sem tempero...
- Como a senhora entrou aqui?
- Entrou? Essa é boa! Entrou! Olha só, Adelaide, o menino acha que a gente entra aqui... meu filho, eu fui é entrada à força. Até entendo a Soninha, minha filha. Já tá com sessenta, tem neto grande e tudo, não consegue cuidar de todo mundo, por isso me colocou aqui. Mas não venha me dizer que asilo é bom pro velho se distrair, porque isso aqui é que nem prisão, só que mais cheirosinho. Eu fui é entrada aqui. Não à força, que não sou boba de querer chatear os outros com a minha velhice. Sabe o que é, chegou uma hora e eu disse pra Soninha, minha filha, tá na hora de mamãe ir pra uma casa de repouso, não disse asilo pra ela não se sentir muito culpada.
- E o que ela achou da idéia?
- No começo ficou com o coração revirado, coitada. Mas depois foi acostumando, até que resolveu me trazer. No dia da visita mesmo eu fiquei. Não quero ser estorvo de ninguém.
- E antes de morar com a sua filha, como era a sua vida?
- Antes da morte do meu velho?
- Isso.
- Poxa, isso dá um caldo, hein, meu filho. Sabe o que é, minha memória anda meio fraca. Mas vamos lá. Vamos lá. vou começar do começo mesmo, hein. E vou falar um monte de besteiras, porque a cabeça anda ruim, mas vamos lá. Mas antes eu preciso tomar o meu remédio. Você me dá licença? Ajuda aqui a vovó a se levantar. Isso. Upa! Ah, que menino mais lindo. Podia ser meu neto, esse garoto. Não é uma beleza, Adelaide?
- Por onde quiser.
- Espera um pouco, então. Deixa eu pegar meus óculos.
- Mas a senhora não precisa ler nada.
- Eu sei. É que preciso enxergar você direito.
(...)
- Vamos lá. Já que eu posso começar por onde quiser, começo dizendo que a comida daqui é horrível. Sabe o que é? Eles têm que fazer uma coisa meio sem tempero, porque alguns velhinhos daqui têm pressão alta, outros têm colesterol, outros têm não sei o quê... minha saúde é de ferro, mês passado mesmo eu fui no médico, doutor Luiz, ótima pessoa, e ele disse que eu vivo mais oitenta e cinco. É um pândego esse doutor, claro. Nem aquele velho que construiu Brasília, como é o nome dele...
- Oscar Niemeyer. Ele não construiu, só planejou a cidade.
- Isso, o Niemeyer. Nem ele viveria tanto, e olha que já passou dos cem e tá aí cheio de saúde. Aposto que come o que quer, na hora que quer... mas então, sabe o que é, aqui a comida é horrível. A gente tenta dar um jeito, esconde umas bolachas para os outros não pegarem e come tudo de madrugada... mas comida mesmo, que é bom, é tudo sem sal e sem tempero...
- Como a senhora entrou aqui?
- Entrou? Essa é boa! Entrou! Olha só, Adelaide, o menino acha que a gente entra aqui... meu filho, eu fui é entrada à força. Até entendo a Soninha, minha filha. Já tá com sessenta, tem neto grande e tudo, não consegue cuidar de todo mundo, por isso me colocou aqui. Mas não venha me dizer que asilo é bom pro velho se distrair, porque isso aqui é que nem prisão, só que mais cheirosinho. Eu fui é entrada aqui. Não à força, que não sou boba de querer chatear os outros com a minha velhice. Sabe o que é, chegou uma hora e eu disse pra Soninha, minha filha, tá na hora de mamãe ir pra uma casa de repouso, não disse asilo pra ela não se sentir muito culpada.
- E o que ela achou da idéia?
- No começo ficou com o coração revirado, coitada. Mas depois foi acostumando, até que resolveu me trazer. No dia da visita mesmo eu fiquei. Não quero ser estorvo de ninguém.
- E antes de morar com a sua filha, como era a sua vida?
- Antes da morte do meu velho?
- Isso.
- Poxa, isso dá um caldo, hein, meu filho. Sabe o que é, minha memória anda meio fraca. Mas vamos lá. Vamos lá. vou começar do começo mesmo, hein. E vou falar um monte de besteiras, porque a cabeça anda ruim, mas vamos lá. Mas antes eu preciso tomar o meu remédio. Você me dá licença? Ajuda aqui a vovó a se levantar. Isso. Upa! Ah, que menino mais lindo. Podia ser meu neto, esse garoto. Não é uma beleza, Adelaide?
Por mim...
(este texto é antigo -- hoje ele já fala tudo, e pelos cotovelos)
- E aí, filho? Brincou muito na escola hoje?
- Mamãe!
- Mamãe tá no trabalho, você já sabe disso. Quem te pega na escola é o papai.
- Cóia u-uuba bincô!
- Brincou com a tartaruga Jujuba, foi?
- Cacaúa, u-uuba, ééé!
- E ela tava com fome? Você deu comida pra ela?
- Papá! Ôpa! Cainha!
- Não, quem comeu sopa com carninha foi você, filho. Ela comeu o quê?
- Cuco!
- Tá, papai dá suco quando chegar em casa.
- Cuco!
- Papai já disse que vai dar...
- Cuco! Cuco!
(...)
- E você quer ir pra praia amanhã, filho?
- Paia!
- Quer ou não quer? Diz pro papai.
- Pumim, papai... paia!
- E aí, filho? Brincou muito na escola hoje?
- Mamãe!
- Mamãe tá no trabalho, você já sabe disso. Quem te pega na escola é o papai.
- Cóia u-uuba bincô!
- Brincou com a tartaruga Jujuba, foi?
- Cacaúa, u-uuba, ééé!
- E ela tava com fome? Você deu comida pra ela?
- Papá! Ôpa! Cainha!
- Não, quem comeu sopa com carninha foi você, filho. Ela comeu o quê?
- Cuco!
- Tá, papai dá suco quando chegar em casa.
- Cuco!
- Papai já disse que vai dar...
- Cuco! Cuco!
(...)
- E você quer ir pra praia amanhã, filho?
- Paia!
- Quer ou não quer? Diz pro papai.
- Pumim, papai... paia!
Homem-morcego
Ele fazia caras e bocas diante do espelho. Ignorando a platéia do restaurante, que movimentava os garfos enquanto assistia ao show, ele pulava, abria e fechava a capa preta, soltava gritinhos de êxtase e, no fim de cada cena, fitava a própria expressão, que trazia um ar superior a todos nós, mortais. A mãe, a alguns metros dali, tentava convencê-lo a largar o pacote de Cheetos sabor queijo e engolir alguns nutrientes. Ele não queria saber de comida. Suas pílulas amarelas bastariam para amplificar infinitamente seus poderes. Do seu cinto de utilidades, fingiu tirar alguma arma mortal e apontou-a para a própria imagem.
Subitamente, o furor heróico-narcísico do moleque foi interrompido por uma voz que, de início, parecia vir de algum lugar além da imaginação. Mas ele logo viu que as palavras saíam da boca do sujeito que, por trás do balcão de frios, com sorriso de deboche, espiava as saltitâncias do pequeno. E que fez questão de trazer de volta à realidade aquele corpo franzino enfiado em uma fantasia infantil.
- Aí, Batman, a sua mãe tá chamando você ali no caixa.
Definitivamente, o mundo não estava preparado para a sua grandeza.
Subitamente, o furor heróico-narcísico do moleque foi interrompido por uma voz que, de início, parecia vir de algum lugar além da imaginação. Mas ele logo viu que as palavras saíam da boca do sujeito que, por trás do balcão de frios, com sorriso de deboche, espiava as saltitâncias do pequeno. E que fez questão de trazer de volta à realidade aquele corpo franzino enfiado em uma fantasia infantil.
- Aí, Batman, a sua mãe tá chamando você ali no caixa.
Definitivamente, o mundo não estava preparado para a sua grandeza.
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